Ainda me lembro da emoção que senti quando aprendi a juntar letras e ler as palavras que estavam no meu livrinho didático da pré-escola. Eu tinha 5 anos quando isso aconteceu. Em seguida eu já conseguia ler frases, depois parágrafos e só. A euforia de ter aprendido a ler tinha acabado. Era difícil as palavras fazerem sentido e formarem ideias na minha cabeça.
Quando criança não fui incentivada a ler. Este ato virou uma obrigação de estudo e esta era sua única finalidade. Logo, tornou-se uma atividade absolutamente desinteressante. Isto teve um efeito nocivo na minha vida escolar, porque sem o desenvolvimento da interpretação todo processo de aprendizagem não surtia efeito. Eu não pensava. Decorar era a solução e o único meio de passar nas provas. Nunca fiquei de recuperação.
O ensino brasileiro é um grande jogo de Tudo o que seu Mestre Mandar. A grande maioria dos meus professores chegavam na sala de aula, escreviam no quadro, nós copiávamos, às vezes explicavam o assunto (na verdade repetiam o que tava escrito no livro). A formulação das perguntas dos "exercícios de fixação" tinham uma estrutura que nos faziam transcrever as frases dos textos. Não, não era necessário refletir sobre nada. Pra finalizar esse ritual de "aprendizado" fazíamos uma prova que era praticamente uma cópia desses exercícios.
A fase mais angustiante da minha vida de estudante foram os meus 5 anos de vestibular. As primeiras reprovações foram me dando os sinais do grande engodo que eu vivera até ali. Melhorei significativamente minha capacidade de raciocínio e interpretação por necessidade. Não foi nada fácil perceber que eu não tinha aprendido nem metade do que deveria, apesar das minhas boas notas. Foi frustante. E ainda assim eu continuava brincando de Tudo o que o seu Mestre Mandar, pois embora tivesse escolhido um curso de saúde tinha que saber "tudo" de física, matemática, história, geografia...
Nas minhas 2 últimas tentativas fiz aula particular de redação com uma Professora que foi tão responsável pela minha aprovação em medicina quanto a minha família. Olá leitura e raciocínio crítico, muito prazer! Hoje faço uma faculdade, cujo método de ensino, na minha opinião, seria a salvação de todo o sistema educacional brasileiro. No Aprendizado Baseado em Problemas nós correlacionamos o conhecimento com a prática, somos estimulados ao autodidatismo e desenvolvemos nossa habilidade de comunicação e trabalho em grupo.
Mas e o livros literários? Aqueles que dizem ser prazerosos e nos tornar pessoas melhores. Ah, esses eu descobri fora da escola também. Não sou mais obrigada a ler Machado de Assis, Clarice Lispector, Gonçalves Dias e outros apenas para passar nas provas bimestrais ou no vestibular. Ao contrário do que aconteceu quando eu era criança, além de conseguir juntar as letras, hoje o conjunto de palavras me transmite uma ideia. Se os livros didáticos aprimoram nossa inteligência, os literários desenvolvem nossos sentimentos.
É redundante dizer que essa descoberta deve acontecer dentro do ambiente escolar. Mas, infelizmente, ler é muito mais legal fora do colégio. Como eu não quero ser uma médica apenas do corpo, decidi manter o hábito da leitura. Não importa o quão pesado esteja o meu curso, eu farei uma forcinha para ler todos os dias.
Ofereço esse post pra minha querida e eterna professora Arlete Oliveira e peço que vocês ouçam essa música sensacional do Gabriel o pensador.
Uma excelente reflexão, certamente, Amanda. Eu lamento por você e tantas outras pessoas que tiveram de passar por isso (inclusive eu!). Mas te peço que ressignifique esse modelo de ensino/aprendizagem e invista naquilo que te pareça importante, interessante. Pense que haverá chances de (re)produzir modelos melhores com seus filhos,sobrinhos por exemplo.Você já sabe o caminho: é pela leitura. Ela nos dá, inclusive, essa possibilidade de avaliar, refazer, entender e modificar! Obrigada, querida, pelo post, enquanto eu puder, estarei a serviço de uma forma de ensinar que torne pessoas assim como você: leitoras críticas da realidade...bjs
ResponderExcluir